Ele chegou a casa com um sentimento de descontração que já não sentia há muitos anos.
Era já noite fechada e o silêncio reinava na rua.
O tempo estava ameno, com uma brisa fresca que relaxava os músculos, quase até à dormência.
Ele não se lembrava onde tinha estado até então, nem como tinha vindo parar à porta de sua casa, no sétimo andar de um prédio, sempre muito movimentado. Mas não importava. Nem se apercebeu do silêncio que habitava no prédio. Estava em estado de transe e mais nada importava.
De olhos fechados e com um sorriso nos lábios, ele inseriu a chave na ranhura e destrancou a porta. Entrou em casa.
Olhou em redor e notou pequenas diferenças na disposição dos móveis e dos objetos. Não se lembrava de ter comprado uma televisão plasma, nem o telemóvel 'touch' que trazia no bolso das calças, nem dos restantes objetos eletrónicos que se encontravam dispersos pela casa. Estranhou, mas não se importou. Não sabia o que tinha acontecido com ele, desde que saiu de casa de manhã, mas não havia problema; a sensação de confiança e bem-estar que sentia estavam acima do sentimento de estranheza que teimava em espreitar. Naquele momento, sentia-se protegido, confiava cegamente no mundo que o rodeava.
Virou a esquina do corredor até ao seu quarto e abriu a porta com um sorriso. Sentiu um forte impacto contra o seu nariz, que o fez girar para o lado contrário e cair. De olhos fechados, pôs as mãos na cabeça e, na escuridão que encobria a sua visão, podia jurar que viu estrelas, pequenos pontos brancos num céu negro.
A descontração que sentia evaporou-se instantaneamente e foi trocada por uma sensação de confusão e desconforto, já para não falar de uma dor latejante no nariz e na cabeça. Agarrado ao nariz, abriu os olhos e viu à sua frente, de punho em riste, um homem, cabeludo e com uns olhos alucinados, que o olhava com um misto de desorientação, expectativa e curiosidade.
- Mas que raio??!! - gritou.
- Meu, 'tás a ser controlado, meu, 'tamos a ser todos controlados. Não 'tas a ver, meu? - o outro começou a andar de um lado para o outro, fazendo gestos frenéticos com as mãos. Parecia um macaco aos saltos a falar um qualquer idioma primitivo. - Eles vêm tudo, meu, eles sabem tudo. ELES QUEREM TUDO!! Vamos morrer todos, meu, temos de fazer alguma coisa, senão morremos todos, meu.
Enquanto o outro proferia frases soltas, ele levantou-se, apoiado à parede e limpou o sangue do nariz à manga da camisa.
- Quem és tu? Que estás aqui a fazer?
- Quem sou eu? Quem sou EU? Quem és TU? - disse o outro olhando-o de alto a baixo, como se o visse agora pela primeira vez.
- Invadiste a minha casa, deste-me um murro no nariz, estás para aí a dizer parvoíces e ainda me perguntas quem sou eu, como se EU fosse O maluco?! Tu és doido, pá! Sai da minha casa!
- Meu, não 'tas a perceber, eu vim ajudar-te. O murro foi pra te acordar, meu. Estavas a ser controlado, ESTAMOS a ser controlados, meu, temos de nos ajudar uns aos outros, senão morremos, morremos todos, meu.
O outro agarrou-o pelos ombros e começou a abaná-lo freneticamente.
- Acorda, meu, acorda!! Olha à tua volta; tecnologias meu, tecnologias!! Pra que queres tu tantos aparelhos? Metade deles nem sabes pra que foram feitos. Dinheiro, meu, DINHEIRO!!
- Larga-me anormal! - ele desembaraçou-se do outro com um empurrão, que o fez cair por cima da secretária que se encontrava a um canto. O outro bateu com a cabeça na esquina e fez um corte na testa, de onde começou a escorrer sangue.
- Meu... Meu, acorda... Eles controlam-te... Eles fazem 'gato-sapato' de ti e tu deixas, meu... Acorda... Eles metem-te 'chips' na cabeça e controlam-te, meu... Eles sabem onde vais, quando vais, com quem 'tas, o que 'tas a fazer, meu... E eles tiram-te tudo... Tu nem dás conta, meu, eles dizem que é pra teu bem e tu acreditas, meu... - o outro agarrou-o pela manga da camisa, enquanto balbuciava - Não deixes, meu, não deixes, não deixes que eles te matem...
- Queres saber? - disse ele, levantando-se bruscamente - Eu não me importo. Sabes porquê? Porque 'ELES', como tu dizes, tomam conta de mim. Providenciam-me tudo o que eu preciso para viver. Dão-me comida, roupa, casa, transporte, diversão... É claro que tenho de pagar, na vida nada é de graça, mas o dinheiro não é o mais importante, o importante é VIVER!
- E vives, meu? Vives REALMENTE?
O outro deixou escapar o último suspiro enquanto fechava os olhos.
Ele virou costas e foi até à cozinha. Pegou num copo e encheu-o com água da torneira. Pensava enquanto bebia. 'Quero de volta a sensação de relaxamento que sentia quando cheguei a casa.'
Nesse instante ouviu a porta da entrada a abrir, era a sua namorada que chegava a casa. Ela entrou, fechou a porta e dirigiu-se pelo corredor em direção ao quarto.
- Não entres aí! - gritou ele.
Mas ela não o ouviu e entrou no quarto.
Ela deu um grito e ele correu atrás dela. Quando chegou à porta do quarto e olhou para o homem deitado no chão, reconheceu-o. A escorrer sangue pela cabeça, sem barba e com o seu telemóvel 'touch' a sair do bolso das calças.
Ele deixou cair o copo no chão e chamou o nome dela.
Mas ela já não o ouvia.