Era
tarde.
Não
sabia que horas eram, mas, também não lhe interessava, a própria
ideia de pensar no tempo causava-lhe náuseas.
Só
sabia que era tarde.
Tinha sido um daqueles dias de calor
infernal, o ar abafado impregnado em tudo o que tocava.
Era
difícil estar concentrado, o calor impedia os seus movimentos e até
respirar o deixava cansado.
Sentia a cabeça pesada quando se
sentou no sofá desgastado, com um copo de whisky numa mão e a
garrafa na outra. Muito pausadamente, como se se movimentasse em
câmara lenta, pousou a garrafa no chão, tirou o maço de tabaco e o
isqueiro do bolso da camisa e acendeu um cigarro.
Até isso lhe
custava.
O fumo do cigarro misturado com aquele calor que pairava
no ar deixavam-no tonto.
Nem por isso o apagou.
Passou
levemente o copo de whisky com gelo na testa. As gotas de suor
escorriam-lhe pela cara.
Era o inferno.
Pensou em como
teria ali chegado. Naquele quarto escuro e despojado de qualquer
sinal de vida.
De
onde estava sentado e no seio da penumbra que o envolvia, conseguia
apenas distinguir os contornos foscos da cama de ferro, encostada à
parede à sua esquerda, no canto mais afastado do vestíbulo; a mesa
arredondada da cozinha à sua direita, que espreitava pela porta
entreaberta e um retângulo escuro, pendurado na parede, mesmo à sua
frente. Deveria ser um quadro, pensou ele. Sim, certamente que era um
quadro (que mais poderia ser?). Tentou, em vão, lembrar-se do que lá
estava representado. Inútil. Nem se lembrava se alguém lho tinha
oferecido, ou se já estava naquela parede, quando se mudou para
aquele apartamento (se é que se pode chamar apartamento àquele
cubículo escuro e sujo).
Concentrou
a sua atenção na organização dos pensamentos. Era uma tarefa mais
árdua do que parecia; eles andavam dispersos, como o fumo que se
desprendia do cigarro.
Por
mais que se esforçasse, a sua mente só se dirigia para um
pensamento:
Onde foram parar todos aqueles anos?
Qual
foi o momento exato em que perdeu a sua juventude?
Quando
foi que lhe tiraram o tapete debaixo dos pés?
Não
se lembrava.
Como
se costuma dizer, estava na 'flor da vida', nos 'anos dourados', em
que tudo pode acontecer e onde todas as portas têm o sinal luminoso
de 'saída'. Mas, se assim é, como é possível que se sinta tão
velho, tão roto, tão absurdamente desgraçado?
Não
consegue compreender.
A
ironia onde se encontrava preso deixou de fazer sentido no momento em
que desvendou totalmente o seu significado. Só não se lembrava de
onde estava ele quando isso aconteceu.
Recordou
vagamente do tédio que sentira naqueles dias passados sentado na
beira do muro. Como queria lá voltar neste momento. O tédio de
ontem tornou-se o desejo de hoje.
Lembrou-se
Dela.
A
imagem do seu rosto veio-lhe à memória, tão nitidamente, como se a
estivesse a ver mesmo à sua frente. Mas, não queria pensar nela.
Não sabia explicar, mas sempre que se encontrava num estado mais
meditativo, ela aparecia-lhe, como uma miragem, para o distrair
daquilo que realmente importava. Quando se apercebia disso ficava
estranhamente irritado.
Mas
hoje não.
Hoje
sentia-se demasiado dormente para se irritar. Sem contar com o calor
inebriante que se fazia sentir.
Esforçou-se
por fazer desaparecer da sua mente aquele rosto, que, por mais que
tentasse, teimava em ficar eternamente emoldurado na parede da sua
memória.
Sorri.
Não
é um sorriso forçado, mas sente vergonha dele. Não sabe bem porque
sorri, foi um espasmo súbito que o arrancou do êxtase em que se
encontrava por pensar nela.
Ele passa a mão pela cara, como se a
lavasse. Se fosse assim tão simples.
Ele sabe que há algo de
errado nele. Algo nos genes. É mais do que uma intuição, é uma
certeza. A forma como vê o mundo à sua volta não é igual ao de
todas as outras pessoas, tudo o que vê apresenta sinais de
decadência e putrefação, o céu que nasce para ele nunca apresenta
tons de azul, mas sim de um laranja gasto, um sol vermelho vivo paira
no céu, com um tom recriminatório. Aos seus olhos, o verde não
existe. As árvores, arbustos, arvoredos, todas as plantas são de um
castanho assustador.
Pensa
no passado.
O que quer que faça remete-lhe sempre para o
passado.
Já analisou vezes sem conta as ações que tomou. O que
fez para chegar a este ponto. Sabe que tomou todas as decisões de
forma errada e acabou ali. No sufoco daquele quarto. Sozinho com o
seu cansaço.
E este calor. Tinham anunciado que era a noite mais
quente alguma vez registada.
Bebeu o whisky que restava no copo e
tornou a enchê-lo. Já não tinha gelo, mas ele sentia-se pesado
demais para se levantar.
Sentia todo o seu corpo entorpecido.
Sabia que não era só por causa do calor.
Era aquele cansaço que
não o deixava.
Pensou em todos aqueles anos desperdiçados. Na
altura pareceram-lhe certos e promissores. Pensou na eventual
possibilidade de voltar atrás e apercebeu-se que, muito
provavelmente, faria tudo igual.
Nunca fez planos nem pensou no
futuro. Para ele, tinha sido sempre tudo sobre o presente. E o
passado. O passado que lhe volta sempre.
A janela estava aberta e
sentiu ao de leve a brisa da noite tocar-lhe na pele. Como sabia bem
o ar fresco no meio daquele inferno.
Levantou-se e foi até à
janela.
Viu a rua cheia de gente aos encontrões uns nos outros.
A
pressa.
Tornou a pensar em como teria ali chegado.
As pessoas
nas ruas nem se apercebiam da decadência que as rodeava. Sentiu uma
ponta de inveja.
Tornou a sorrir.
Questionou-se se os asilos
estariam cheios, caso os outros vissem o mundo como ele vê. Se
estivessem na sua pele.
Viu o céu iluminar-se ao
longe.
Amanhecia.
Teria ficado acordado a noite toda?
Não
importava. Já nada importava mais.
Sentiu o chão tremer debaixo
dos seus pés, os prédios a desmoronarem à sua frente.
Acendeu
outro cigarro e ficou a ver a cidade arder.