domingo, 24 de maio de 2026

Tormento

A dor entrou devagar.

Ficou tanto tempo que tive de lhe abrir espaço dentro de mim.
Instalou-se sem demoras e aprendeu a respirar comigo.

(Queima a pele,
Envenena o sangue,
Corrói o cérebro!)


Durante muito tempo, tentei lutar contra ela, expulsá-la das minhas entranhas.
Mas ela foi crescendo comigo.
E perdi a memória de quem era antes dela.

(Aceito a dor por cansaço)

Ensinou-me a sobreviver.
Ensinou-me a continuar, mesmo despedaçada.
Tornou-se casa.
Tornou-se conforto.
Tornou-se uma extensão de mim.

A sua ausência tornar-se-ia num vazio indecifrável.

Vivo acorrentada a ela e já não sei se as correntes me prendem ou se me mantêm inteira.

segunda-feira, 21 de julho de 2025

Des-amor

(Quem nunca se apaixonou pela ideia que criou de alguém?
E quem nunca sentiu serem cortadas as asas das famosas borboletas que habitam na nossa barriga?
Quem nunca se despediu, sem saber soletrar a palavra "adeus" e sentiu aquele "qualquer coisa especial" esfumar-se no ar?)


O que fazemos com um sentimento que não nos pertence? Que não é nosso para o podermos oferecer a quem queremos?

Nem mesmo nós que o sentimos, o sabemos explicar; é um sentimento com vontade própria. O seu único desejo é ser entregue a outra pessoa, criar raízes noutro coração e lá ficar.

Mas o que fazemos quando o destinatário não está em casa para o receber?

Extravia-se.
Vagueia por aí, perdido e sozinho.
Tropeça nos próprios pés a tentar perceber onde errou.
Esfarrapa-se pelo chão e sente-se dorido e imundo.
Anseia por conforto.
Precisa do abraço aconchegante que só nós conseguimos dar.
Percorre ruas desertas à nossa procura e, por fim, regressa, todo ele desajeitado e envergonhado.
Pegamos nele com todo o cuidado para não o magoar mais.

Cuidamos.
Protegemos.

Mas ele já não é o mesmo; já não é leve e cheio de vida. Perdeu toda a pureza quando não foi aceite.
Fica a vergonha, a rejeição, ficam as feridas que demoram a sarar.
E depois surgem as cicatrizes que tanto incomodam e atormentam.

E o que nos acontece a nós, enquanto o sentimento vai na sua jornada?

Nós sentamo-nos à secretária e escrevemos um livro. 
Esquecemos tudo o resto.
Deixamos quase de respirar. 
Andamos distraídos a criar uma ideia para um amor que não existe.
Embriagamo-nos com palavras que não são destinadas aos nossos ouvidos e começamos a escrever um longo romance; páginas e páginas preenchidas com diálogos, aventuras e experiências que nunca irão ver o nascer do sol.
Por companhia temos apenas as borboletas - aquelas da barriga, que todos conhecemos - queremos mantê-las vivas, por isso, vamos dando-lhes migalhas feitas de sonhos como alimento (é só isso que temos).

E esperamos.

Ansiosos. Pacientes. Um misto de entusiasmo com receio, que se transforma num alvoroço de borboletas dentro de nós!
Até que um dia - como um raio que nos cai na cabeça! - ouvimos as palavras que são realmente destinadas a nós, aquelas menos bonitas, aquelas que quebram a janela entre a ilusão e a realidade, nos despem de tudo e nos dilaceram o coração.
O sentimento regressa a nós, frágil e desamparado.
Damos-lhe a mão e juntos choramos.
Passam-se noites intermináveis de insónias e desassossego.

Parecem não ter fim.

O tempo parece ficar suspenso num só momento. Numa só frase.

Só quando vemos o nosso reflexo nos estilhaços que ficaram caídos no chão quando o raio quebrou a ilusão, é que percebemos - apaixonámo-nos apenas por uma ideia que criámos. E é nesse momento que temos de dizer adeus, uma palavra que nos é desconfortável, mas inevitável. 

Por isso:
Guardamos o longo romance inacabado na estante.
Paramos de alimentar as borboletas.
Cobrimos o sentimento com uma manta.
Deitamos a cabeça na almofada, o mais serenamente possível.
E apagamos a luz.

Serão noites mais calmas agora.



quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

O Meu Demónio

Não sei nada sobre os demónios alheios.
Muitas vezes, nem sobre os meus sei.

Empregamos tantas palavras no dia-a-dia, mas saberemos realmente usá-las?
E o silêncio? Esse nada que surge no meio do nada, para nos sufocar no vazio e nos fazer sentir como nada.

(Confesso que tenho dificuldade em usar os dois.)

O silêncio fere tanto como as palavras.
Todos sabemos disso.
Trespassa a nossa pele como uma lâmina - fria e implacável. E sem volta atrás. Retiramos a lâmina, mas a ferida continua lá. Cicatrizamos, mas essa cicatriz lembra-nos sempre de quem empunhou a lâmina, de quem atribuiu mais poder ao demónio dos nossos pesadelos.

Eu passo as noites em corridas desenfreadas, a fugir do meu.

Não lhe conheço o rosto. É apenas um sorriso malicioso envolto em escuridão, que sussurra palavras incompreensíveis. 

Atravesso florestas inteiras, a correr, a ofegar e a gritar por ajuda. Mas não vem ninguém. E ele não pára. Não se cansa e não perde aquele sorriso que debocha de mim todas as vezes que fecho os olhos.

(Tenho medo de dormir.)

Acordo em pânico, as pernas bambas de tanto correr, a garganta seca e sem voz, de tanto gritar. Acordo sempre envolvida pela escuridão, e aos poucos começo a ver a luz da lua a surgir timidamente através dos contornos da janela. Também ela amedrontada.

A manhã vem sempre acompanhada pelo cansaço. O meu, não o dela. 

(Companheiro de toda a vida.)

Este é o meu demónio, sem algorias ou sujeito a qualquer interpretação. 


(Mudaria alguma coisa se soubéssemos dos demónios uns dos outros?)


domingo, 1 de maio de 2016

Caderno de Pensamentos

Quanto mais escrevia, mais vontade tinha de despejar no papel todas as palavras que lhe vinham à cabeça.
Muitas das frases não faziam sentido, pelo menos para quem as lia à superfície, mas, para ele, eram a sua mente, eram fragmentos da sua consciência insatisfeita, colocados aleatoriamente numa folha branca.
Não sabia explicar porque sentiu esse súbito desejo de se expressar pela escrita. Não era, de todo, o seu forte. Tinha os pensamentos demasiado desorganizados para os transmitir correctamente, para construír as histórias que lhe surgiam durante as noites passadas acordado, a olhar para o vazio e a imaginar as várias possibilidades dos 'e se...'.
Mas, agora que tinha começado essa diligência, não conseguia parar, mesmo que fosse só para riscar palavras já escritas e substituí-las por outras.
Chegava a pensar que estava preso ao desejo de ser compreendido, de deixar para trás algo que, mesmo remotamente, fizesse as pessoas lembrarem-se quem ele era. No entanto, sabia que não era esse o motivo genuíno para que, todas as noites, pegasse no seu bloco de notas e escrevesse. Se assim fosse, escreveria apenas sobre as maravilhas do mundo, deixaria mensagens de conforto e esperança e, sobretudo, dsenharia floreados em torno da sua pessoa, para que fosse recordado com carinho.
Não. Não era esse o motivo.
Outra das possibilidades e, talvez, a mais plausível, para ele, era o facto de se sentir tão só. Tinha necessidade de se expressar, de falar, muitas vezes deu consigo com vontade de gritar! Tinha medo da solidão, como um supersticioso tem medo de gatos pretos. Queria estar sozinho, mas não queria estar sozinho. Tinha medo da escuridão que envolvia o seu quarto à noite; as paredes vazias, o tecto como horizonte, a janela que escondia o mundo, com os seus cortinados espessos e a porta fechada, que não levava a lugar nenhum.
Ou então, pensava demasiado. A sua mente já não suportava albergar tantos pensamentos de uma só vez e sentia necessidade de se expurgar do excesso.
De qualquer forma, naquele momento, o que importava não era o motivo. Também não lhe interessava o que escrevia. Queria simplesmente ver as palavras ganharem forma no papel.

domingo, 17 de janeiro de 2016

O Desgosto

Acordou com um desgosto na cabeça.
Não é o do coração, que esse sofre de amores que não são para aqui chamados. 
É na cabeça mesmo. No cruzamento entre a emoção e a razão. Não se deixe enganar quem pensa que as emoções estão no coração. Não. Está tudo na cabeça. 
Mas, como estava a dizer, acordou com um desgosto na cabeça. 
Não o sentiu chegar, tampouco previu que iria ficar assim destroçado, de um momento para o outro. Foi literalmente de um momento para o outro! 
Apercebeu-se apenas de um vazio na mente, como se lhe tivessem roubado os pensamentos. 
Já dizia o poeta - certamente sabia do que falava - que "pensar incomoda como andar à chuva". 
Os Pensamentos. 
Toda a gente os tem, uns mais organizados do que outros, uns mais lógicos, outros mais inocentes e até mesmo os mais depravados. Chega sempre o dia em que pensamos todos o mesmo tipo de pensamento, é como se abríssemos uma gaveta, selecionamos um ficheiro e lemos as regras de funcionamento de cada um. Mas pareceu-lhe ter a gaveta vazia, a sua mente estava leve e o seu corpo pesado. 
Por esta razão acordou com um desgosto na cabeça. 
Sentiu a tristeza, a solidão e o vazio - companheiros inseparáveis - percorrerem-lhe, não o corpo, muito menos o coração, mas, sim, a própria mente. Foi-lhe negado, assim, o seu refúgio privado: o pensar, que tantas vezes o incomodava, tantas vezes o distraía, tantas vezes o magoava. 
Sentia falta dessa confusão. 
Por isso é que tinha um desgosto na cabeça.

 Lembrou-se do vazio enorme dentro de si.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Ah a pressa!

Ah a pressa! 

Como é possível que, com tantos mecanismos e tecnologias desenhados para nos facilitar a vida, 
as pessoas parecem ter cada vez mais pressa? 
Têm ânsia em fazer e querem ser os primeiros a dizer; 
têm pressa de sair e pressa de chegar. 
Só não têm pressa de ficar. 
Já não há tempo para o que é importante - já não há tempo para nada! 
É uma azáfama desenfreada como nunca se viu. 
Sempre me fizeram impressão, uma ligeira comichão nas pontas dos dedos - as multidões. 
São os sentidos a tropeçar uns nos outros, por serem estimulados ao mesmo tempo, 
não sabem qual deles deve agir primeiro. 
É neste estado de desorientação que me sinto quando estou rodeada por pessoas. 
É uma impaciência contínua que me desalinha a atenção e despedaça a cortesia.

sábado, 15 de agosto de 2015

Cidade em Chamas

Era tarde.

Não sabia que horas eram, mas, também não lhe interessava, a própria ideia de pensar no tempo causava-lhe náuseas.

Só sabia que era tarde.
Tinha sido um daqueles dias de calor infernal, o ar abafado impregnado em tudo o que tocava.
Era difícil estar concentrado, o calor impedia os seus movimentos e até respirar o deixava cansado.
Sentia a cabeça pesada quando se sentou no sofá desgastado, com um copo de whisky numa mão e a garrafa na outra. Muito pausadamente, como se se movimentasse em câmara lenta, pousou a garrafa no chão, tirou o maço de tabaco e o isqueiro do bolso da camisa e acendeu um cigarro.
Até isso lhe custava.
O fumo do cigarro misturado com aquele calor que pairava no ar deixavam-no tonto.
Nem por isso o apagou.
Passou levemente o copo de whisky com gelo na testa. As gotas de suor escorriam-lhe pela cara. 
Era o inferno.
Pensou em como teria ali chegado. Naquele quarto escuro e despojado de qualquer sinal de vida.

De onde estava sentado e no seio da penumbra que o envolvia, conseguia apenas distinguir os contornos foscos da cama de ferro, encostada à parede à sua esquerda, no canto mais afastado do vestíbulo; a mesa arredondada da cozinha à sua direita, que espreitava pela porta entreaberta e um retângulo escuro, pendurado na parede, mesmo à sua frente. Deveria ser um quadro, pensou ele. Sim, certamente que era um quadro (que mais poderia ser?). Tentou, em vão, lembrar-se do que lá estava representado. Inútil. Nem se lembrava se alguém lho tinha oferecido, ou se já estava naquela parede, quando se mudou para aquele apartamento (se é que se pode chamar apartamento àquele cubículo escuro e sujo).

Concentrou a sua atenção na organização dos pensamentos. Era uma tarefa mais árdua do que parecia; eles andavam dispersos, como o fumo que se desprendia do cigarro.

Por mais que se esforçasse, a sua mente só se dirigia para um pensamento:
Onde foram parar todos aqueles anos?

Qual foi o momento exato em que perdeu a sua juventude?

Quando foi que lhe tiraram o tapete debaixo dos pés?

Não se lembrava.

Como se costuma dizer, estava na 'flor da vida', nos 'anos dourados', em que tudo pode acontecer e onde todas as portas têm o sinal luminoso de 'saída'. Mas, se assim é, como é possível que se sinta tão velho, tão roto, tão absurdamente desgraçado?

Não consegue compreender.

A ironia onde se encontrava preso deixou de fazer sentido no momento em que desvendou totalmente o seu significado. Só não se lembrava de onde estava ele quando isso aconteceu.

Recordou vagamente do tédio que sentira naqueles dias passados sentado na beira do muro. Como queria lá voltar neste momento. O tédio de ontem tornou-se o desejo de hoje.

Lembrou-se Dela.

A imagem do seu rosto veio-lhe à memória, tão nitidamente, como se a estivesse a ver mesmo à sua frente. Mas, não queria pensar nela. Não sabia explicar, mas sempre que se encontrava num estado mais meditativo, ela aparecia-lhe, como uma miragem, para o distrair daquilo que realmente importava. Quando se apercebia disso ficava estranhamente irritado.

Mas hoje não.

Hoje sentia-se demasiado dormente para se irritar. Sem contar com o calor inebriante que se fazia sentir.

Esforçou-se por fazer desaparecer da sua mente aquele rosto, que, por mais que tentasse, teimava em ficar eternamente emoldurado na parede da sua memória.

Sorri.
Não é um sorriso forçado, mas sente vergonha dele. Não sabe bem porque sorri, foi um espasmo súbito que o arrancou do êxtase em que se encontrava por pensar nela.
Ele passa a mão pela cara, como se a lavasse. Se fosse assim tão simples.
Ele sabe que há algo de errado nele. Algo nos genes. É mais do que uma intuição, é uma certeza. A forma como vê o mundo à sua volta não é igual ao de todas as outras pessoas, tudo o que vê apresenta sinais de decadência e putrefação, o céu que nasce para ele nunca apresenta tons de azul, mas sim de um laranja gasto, um sol vermelho vivo paira no céu, com um tom recriminatório. Aos seus olhos, o verde não existe. As árvores, arbustos, arvoredos, todas as plantas são de um castanho assustador.
 

Pensa no passado.
O que quer que faça remete-lhe sempre para o passado.
Já analisou vezes sem conta as ações que tomou. O que fez para chegar a este ponto. Sabe que tomou todas as decisões de forma errada e acabou ali. No sufoco daquele quarto. Sozinho com o seu cansaço.
E este calor. Tinham anunciado que era a noite mais quente alguma vez registada.
Bebeu o whisky que restava no copo e tornou a enchê-lo. Já não tinha gelo, mas ele sentia-se pesado demais para se levantar.
Sentia todo o seu corpo entorpecido. Sabia que não era só por causa do calor.
Era aquele cansaço que não o deixava.
Pensou em todos aqueles anos desperdiçados. Na altura pareceram-lhe certos e promissores. Pensou na eventual possibilidade de voltar atrás e apercebeu-se que, muito provavelmente, faria tudo igual.
Nunca fez planos nem pensou no futuro. Para ele, tinha sido sempre tudo sobre o presente. E o passado. O passado que lhe volta sempre.
A janela estava aberta e sentiu ao de leve a brisa da noite tocar-lhe na pele. Como sabia bem o ar fresco no meio daquele inferno.
Levantou-se e foi até à janela.
Viu a rua cheia de gente aos encontrões uns nos outros.
A pressa.
Tornou a pensar em como teria ali chegado.
As pessoas nas ruas nem se apercebiam da decadência que as rodeava. Sentiu uma ponta de inveja.
Tornou a sorrir.
Questionou-se se os asilos estariam cheios, caso os outros vissem o mundo como ele vê. Se estivessem na sua pele.
Viu o céu iluminar-se ao longe.
Amanhecia.
Teria ficado acordado a noite toda?
Não importava. Já nada importava mais.
Sentiu o chão tremer debaixo dos seus pés, os prédios a desmoronarem à sua frente.
Acendeu outro cigarro e ficou a ver a cidade arder.