Quanto mais escrevia, mais vontade tinha de despejar no papel todas as palavras que lhe vinham à cabeça.
Muitas das frases não faziam sentido, pelo menos para quem as lia à superfície, mas, para ele, eram a sua mente, eram fragmentos da sua consciência insatisfeita, colocados aleatoriamente numa folha branca.
Não sabia explicar porque sentiu esse súbito desejo de se expressar pela escrita. Não era, de todo, o seu forte. Tinha os pensamentos demasiado desorganizados para os transmitir correctamente, para construír as histórias que lhe surgiam durante as noites passadas acordado, a olhar para o vazio e a imaginar as várias possibilidades dos 'e se...'.
Mas, agora que tinha começado essa diligência, não conseguia parar, mesmo que fosse só para riscar palavras já escritas e substituí-las por outras.
Chegava a pensar que estava preso ao desejo de ser compreendido, de deixar para trás algo que, mesmo remotamente, fizesse as pessoas lembrarem-se quem ele era. No entanto, sabia que não era esse o motivo genuíno para que, todas as noites, pegasse no seu bloco de notas e escrevesse. Se assim fosse, escreveria apenas sobre as maravilhas do mundo, deixaria mensagens de conforto e esperança e, sobretudo, dsenharia floreados em torno da sua pessoa, para que fosse recordado com carinho.
Não. Não era esse o motivo.
Outra das possibilidades e, talvez, a mais plausível, para ele, era o facto de se sentir tão só. Tinha necessidade de se expressar, de falar, muitas vezes deu consigo com vontade de gritar! Tinha medo da solidão, como um supersticioso tem medo de gatos pretos. Queria estar sozinho, mas não queria estar sozinho. Tinha medo da escuridão que envolvia o seu quarto à noite; as paredes vazias, o tecto como horizonte, a janela que escondia o mundo, com os seus cortinados espessos e a porta fechada, que não levava a lugar nenhum.
Ou então, pensava demasiado. A sua mente já não suportava albergar tantos pensamentos de uma só vez e sentia necessidade de se expurgar do excesso.
De qualquer forma, naquele momento, o que importava não era o motivo. Também não lhe interessava o que escrevia. Queria simplesmente ver as palavras ganharem forma no papel.
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