São sete da manhã e o velho engraxador, de oitenta anos, já vai a caminho da vila, onde espera encontrar clientes necessitados de uma limpeza de pés, é uma maneira de falar, não é que ele lhes vá lavar os pés, com certeza que eles já o fizeram, vai simplesmente dar-lhes um brilho nos sapatos, tirar o pó e a terra que teimam em não largar as solas tão bem cuidadas dos senhores de maiores posses.
Ele só abre as portas do seu pequeno barraco às oito horas, mas como a idade não perdoa, tem de fazer um esforço e levantar-se mais cedo, para chegar a tempo de apanhar os mais madrugadores.
São oito horas em ponto quando o engraxador abre as pequenas portas, entra, tira um pequeno banco de madeira e uma cadeira, com aspecto mais confortável, para os clientes, como é obvio, se não tiverem o mínimo conforto nem se dão ao trabalho de lhe dirigir a palavra. Pega nas pequenas latas de graxa, num pano lavado e numa escova e senta-se à espera da sorte.
Às oito e um quarto aparece o seu cliente mais assíduo, um advogado, que todos os dias lá vai engraxar os sapatos, talvez os suje muito, ou simplesmente tenha pena do velho homem, que todos os dias, desde que era pequeno, o vê sentado no seu banquinho à espera.
O advogado cumprimenta vivamente o velho, enquanto se senta na cadeira.
- Bom dia, senhor Diamantino, está bom?
- Bom dia senhor advogado. Vai-se andando. A idade já começa a pesar, quer dizer, não é bem a idade, porque essa não tem peso que se possa medir fisicamente, é o corpo, senhor advogado, esse sim, pesa cada vez mais. Quer repousar, mas a cabeça e as necessidades não o permitem, há que sustentá-lo, mantê-lo o mais são possível enquanto se pode, para que não quebre. Se o corpo quebra, a cabeça vai atrás, já diz o ditado 'mente sã em corpo são'. Por isso digo que se vai andando, é como a vida, nem muito depressa nem muito devagar, vai ao ritmo natural para um corpo tão decrépito.
O velho engraxador ia cuidando das poeiras e da terra nos sapatos do advogado, enquanto falava. Usava com destreza, apesar do vagar inerente à idade, a escova e o pano. Como se costuma dizer, deixou num brinco os sapatos do advogado, que o escutava atentamente, como se fosse uma criança a ouvir a sua história de dormir favorita.
O advogado pagou sete tostões, uma gorjeta um pouco mais elevada do que o habitual, era um bom homem este advogado, pagava sempre a mais pelo trabalho feito, dizia que era um prazer, que tinha condições para isso e que, para além de ficar com os sapatos a brilhar, ficava também com a cabeça limpa, dizia que era um deleite ouvir as palavras sábias de alguém que sabia sempre um pouco mais sobre a vida e as suas peculiaridades.
O engraxador agradeceu modestamente a generosa gorjeta e despediu-se alegremente do advogado.
Durante a manhã só apareceu mais um cliente, um empresário de renome, que já estava atrasado para uma reunião. Não tinha reparado numa poça de lama e ficou com os sapatos, segundo as palavras dele 'completamente imundos'.
- Veja se se despacha homem, tenho mais que fazer.
- Estou a trabalhar o mais depressa que consigo senhor empresário.
As mãos do velho engraxador tremiam, eram aqueles tiques que se ganham com a velhice, um tremer incessante do corpo, que não permite desenhar uma linha recta. Para além disso estava frio, tinha chegado o inverno. A chuva ainda não tinha mostrado a sua cara, mas o frio, esse era traiçoeiro, aparecia sempre mais cedo, nunca avisava da sua chegada; num dia raiava o sol prazeroso dos dias bons de outono, no dia a seguir o frio cortava a pele como lascas de madeira.
O empresário pagou dois tostões pelo serviço prestado, murmurando rudemente, que já estava atrasado e que o velho demorava demasiado tempo, se não consegue despachar-se no trabalho, que não o faça, que dê a vez a outro, isto não são modos, demorar uma eternidade a limpar um sapato.
O empresário não sabia era que não havia outro, não havia mais ninguém que se quisesse submeter ao velho oficio de engraxar sapatos.
Ao meio dia, o engraxador entrou na sua pequena cabine, fechou a porta e sentou-se no banco. Tirou de um saco de plástico, que trouxe de casa, um pão, que cortou ao meio e uma lata de atum, que já só tinha metade. Comeu, tranquilamente, o seu meio pão com atum, enquanto olhava para os nove tostões que tinha ganho nessa manhã. Não é muito, é quase nada, se à tarde conseguir ganhar mais nove tostões, já é o suficiente para pagar a luz e a água desse mês e sobram-lhe três tostões, um para comprar dois pães, para os próximos dois dias e dois para no final do dia ir ao café ali da esquina jogar no totoloto, pensou ele. Era o seu vício e a sua esperança.
Não fez os nove tostões durante a tarde, fez oito. Não comprou pão, mas jogou no totoloto.
Chegou, finalmente, a casa, cansado e com fome, mas ia com uma esperança de que hoje seria o dia em que ganharia algum dinheiro, não era um homem ganancioso, nunca o fora, pedia pouco e contentava-se com quase nenhum, só pedia o suficiente para que conseguisse aguentar o máximo de tempo possível, nesta sua quase apagada vida.
Abriu o frigorífico; vazio, abriu o armário; duas latas de atum e uma de feijões, em cima da mesa, dentro de um cesto; uma banana e uma maçã. Pegou na lata de feijões, numa colher, sentou-se no sofá, já gasto pelo tempo, cobriu as pernas com uma manta e ligou a televisão. Assistiu ao telejornal, não era seu hábito, não gostava das notícias que passavam. Ficava chocado com as enfermidades do mundo, mais concretamente com as atitudes nefastas das pessoas. Assaltos e assassinatos, incêndios e vandalismo, mentiras políticas e poluição, fome, guerra, enfim, todos os males causados pela existência humana. É um mundo cruel que o velho homem prefere não conhecer. Mas como hoje é dia de sorteio, cujos números serão anunciados na televisão, ele assiste, expectante e ansioso, pode ser que hoje seja o dia, pensa ele sorridente. Mas não foi hoje o seu dia.
Uma semana depois, o advogado não apareceu às oito e um quarto, nem às nove, nem às onze, nem durante a tarde. O engraxador pensou, preocupado, que lhe deveria ter acontecido algo, ele nunca se atrasava, todos os dias lá ia engraxar os sapatos, já por si limpos, todos os dias lhe dava uma gorjeta maior do que o valor do trabalho prestado, todos os dias ficava a escutar atenciosamente as palavras do velho, que só falava para tentar compensar a bondade do advogado. Todos os dias o bom homem aparecia, sorridente, com os bons-dias na ponta da língua, mas hoje ele não veio. O velho não sabe, mas o advogado, que tão amavelmente o visitava todos os dias, tinha sofrido um acidente e estava em coma no hospital. Só acordaria seis meses depois e só, quando totalmente recuperado, daí a mais três meses, voltaria com saudade à cabine do engraxador de sapatos.
Nessa noite, após chegar a casa, o velho fez a sua rotina de procurar em vão por uma boa refeição. O máximo que conseguiu foi um pão com atum e uma maçã, parecia quase um ritual, praticamente todos os dias a mesma refeição, era o mais barato que as suas posses lhe podiam conceder e ele não se podia queixar, pelo menos nunca passou um dia sem comer, por muito pouco que fosse.
Sempre tinha sido um homem solitário, com poucos estudos, poucas posses e pouca ambição. nunca casara nem tivera filhos.
Os seus dias resumiam-se a acordar cedo, caminhar uma hora, com o seu passo lento e tremido, até ao centro da vila, onde, se tivesse sorte, engraxaria os sapatos de alguns senhores, ganhando uns míseros tostões, que serviriam para pagar as contas da casa, que a propósito, por esta altura já estão bastante atrasadas, jogar no totoloto todas as sextas feiras, esperando que a sorte lhe bata à porta, e com os tostões que lhe sobrarem (se sobrarem) comprar alimento para o corpo. Como costuma dizer o velho engraxador, 'corpo são, mente sã'. Não é bem assim que dita a população, mas para ele é o mesmo, se um estiver bem, o outro também está e vice-versa. No fim do dia, caminhar mais uma hora, no seu passo lento e tremido, até casa, onde janta o que puder, sentado no seu pequeno sofá e assiste às telenovelas, que essas são fictícias, não o deixam transtornado, como as coisas que vê no noticiário.
Neste momento, o velho espera que acabem de mostrar essas mesmas notícias, que evita seis dias por semana, para ver o sorteio.
'É hoje, tenho a certeza que é hoje'.