terça-feira, 25 de outubro de 2011

o engraxador de sapatos

São sete da manhã e o velho engraxador, de oitenta anos, já vai a caminho da vila, onde espera encontrar clientes necessitados de uma limpeza de pés, é uma maneira de falar, não é que ele lhes vá lavar os pés, com certeza que eles já o fizeram, vai simplesmente dar-lhes um brilho nos sapatos, tirar o pó e a terra que teimam em não largar as solas tão bem cuidadas dos senhores de maiores posses.

Ele só abre as portas do seu pequeno barraco às oito horas, mas como a idade não perdoa, tem de fazer um esforço e levantar-se mais cedo, para chegar a tempo de apanhar os mais madrugadores.

São oito horas em ponto quando o engraxador abre as pequenas portas, entra, tira um pequeno banco de madeira e uma cadeira, com aspecto mais confortável, para os clientes, como é obvio, se não tiverem o mínimo conforto nem se dão ao trabalho de lhe dirigir a palavra. Pega nas pequenas latas de graxa, num pano lavado e numa escova e senta-se à espera da sorte.

Às oito e um quarto aparece o seu cliente mais assíduo, um advogado, que todos os dias lá vai engraxar os sapatos, talvez os suje muito, ou simplesmente tenha pena do velho homem, que todos os dias, desde que era pequeno, o vê sentado no seu banquinho à espera.

O advogado cumprimenta vivamente o velho, enquanto se senta na cadeira.

- Bom dia, senhor Diamantino, está bom?

- Bom dia senhor advogado. Vai-se andando. A idade já começa a pesar, quer dizer, não é bem a idade, porque essa não tem peso que se possa medir fisicamente, é o corpo, senhor advogado, esse sim, pesa cada vez mais. Quer repousar, mas a cabeça e as necessidades não o permitem, há que sustentá-lo, mantê-lo o mais são possível enquanto se pode, para que não quebre. Se o corpo quebra, a cabeça vai atrás, já diz o ditado 'mente sã em corpo são'. Por isso digo que se vai andando, é como a vida, nem muito depressa nem muito devagar, vai ao ritmo natural para um corpo tão decrépito.

O velho engraxador ia cuidando das poeiras e da terra nos sapatos do advogado, enquanto falava. Usava com destreza, apesar do vagar inerente à idade, a escova e o pano. Como se costuma dizer, deixou num brinco os sapatos do advogado, que o escutava atentamente, como se fosse uma criança a ouvir a sua história de dormir favorita.

O advogado pagou sete tostões, uma gorjeta um pouco mais elevada do que o habitual, era um bom homem este advogado, pagava sempre a mais pelo trabalho feito, dizia que era um prazer, que tinha condições para isso e que, para além de ficar com os sapatos a brilhar, ficava também com a cabeça limpa, dizia que era um deleite ouvir as palavras sábias de alguém que sabia sempre um pouco mais sobre a vida e as suas peculiaridades.

O engraxador agradeceu modestamente a generosa gorjeta e despediu-se alegremente do advogado.

Durante a manhã só apareceu mais um cliente, um empresário de renome, que já estava atrasado para uma reunião. Não tinha reparado numa poça de lama e ficou com os sapatos, segundo as palavras dele 'completamente imundos'.

- Veja se se despacha homem, tenho mais que fazer.

- Estou a trabalhar o mais depressa que consigo senhor empresário.

As mãos do velho engraxador tremiam, eram aqueles tiques que se ganham com a velhice, um tremer incessante do corpo, que não permite desenhar uma linha recta. Para além disso estava frio, tinha chegado o inverno. A chuva ainda não tinha mostrado a sua cara, mas o frio, esse era traiçoeiro, aparecia sempre mais cedo, nunca avisava da sua chegada; num dia raiava o sol prazeroso dos dias bons de outono, no dia a seguir o frio cortava a pele como lascas de madeira.

O empresário pagou dois tostões pelo serviço prestado, murmurando rudemente, que já estava atrasado e que o velho demorava demasiado tempo, se não consegue despachar-se no trabalho, que não o faça, que dê a vez a outro, isto não são modos, demorar uma eternidade a limpar um sapato.

O empresário não sabia era que não havia outro, não havia mais ninguém que se quisesse submeter ao velho oficio de engraxar sapatos.

Ao meio dia, o engraxador entrou na sua pequena cabine, fechou a porta e sentou-se no banco. Tirou de um saco de plástico, que trouxe de casa, um pão, que cortou ao meio e uma lata de atum, que já só tinha metade. Comeu, tranquilamente, o seu meio pão com atum, enquanto olhava para os nove tostões que tinha ganho nessa manhã. Não é muito, é quase nada, se à tarde conseguir ganhar mais nove tostões, já é o suficiente para pagar a luz e a água desse mês e sobram-lhe três tostões, um para comprar dois pães, para os próximos dois dias e dois para no final do dia ir ao café ali da esquina jogar no totoloto, pensou ele. Era o seu vício e a sua esperança.

Não fez os nove tostões durante a tarde, fez oito. Não comprou pão, mas jogou no totoloto.

Chegou, finalmente, a casa, cansado e com fome, mas ia com uma esperança de que hoje seria o dia em que ganharia algum dinheiro, não era um homem ganancioso, nunca o fora, pedia pouco e contentava-se com quase nenhum, só pedia o suficiente para que conseguisse aguentar o máximo de tempo possível, nesta sua quase apagada vida.

Abriu o frigorífico; vazio, abriu o armário; duas latas de atum e uma de feijões, em cima da mesa, dentro de um cesto; uma banana e uma maçã. Pegou na lata de feijões, numa colher, sentou-se no sofá, já gasto pelo tempo, cobriu as pernas com uma manta e ligou a televisão. Assistiu ao telejornal, não era seu hábito, não gostava das notícias que passavam. Ficava chocado com as enfermidades do mundo, mais concretamente com as atitudes nefastas das pessoas. Assaltos e assassinatos, incêndios e vandalismo, mentiras políticas e poluição, fome, guerra, enfim, todos os males causados pela existência humana. É um mundo cruel que o velho homem prefere não conhecer. Mas como hoje é dia de sorteio, cujos números serão anunciados na televisão, ele assiste, expectante e ansioso, pode ser que hoje seja o dia, pensa ele sorridente. Mas não foi hoje o seu dia.

Uma semana depois, o advogado não apareceu às oito e um quarto, nem às nove, nem às onze, nem durante a tarde. O engraxador pensou, preocupado, que lhe deveria ter acontecido algo, ele nunca se atrasava, todos os dias lá ia engraxar os sapatos, já por si limpos, todos os dias lhe dava uma gorjeta maior do que o valor do trabalho prestado, todos os dias ficava a escutar atenciosamente as palavras do velho, que só falava para tentar compensar a bondade do advogado. Todos os dias o bom homem aparecia, sorridente, com os bons-dias na ponta da língua, mas hoje ele não veio. O velho não sabe, mas o advogado, que tão amavelmente o visitava todos os dias, tinha sofrido um acidente e estava em coma no hospital. Só acordaria seis meses depois e só, quando totalmente recuperado, daí a mais três meses, voltaria com saudade à cabine do engraxador de sapatos.

Nessa noite, após chegar a casa, o velho fez a sua rotina de procurar em vão por uma boa refeição. O máximo que conseguiu foi um pão com atum e uma maçã, parecia quase um ritual, praticamente todos os dias a mesma refeição, era o mais barato que as suas posses lhe podiam conceder e ele não se podia queixar, pelo menos nunca passou um dia sem comer, por muito pouco que fosse.

Sempre tinha sido um homem solitário, com poucos estudos, poucas posses e pouca ambição. nunca casara nem tivera filhos.

Os seus dias resumiam-se a acordar cedo, caminhar uma hora, com o seu passo lento e tremido, até ao centro da vila, onde, se tivesse sorte, engraxaria os sapatos de alguns senhores, ganhando uns míseros tostões, que serviriam para pagar as contas da casa, que a propósito, por esta altura já estão bastante atrasadas, jogar no totoloto todas as sextas feiras, esperando que a sorte lhe bata à porta, e com os tostões que lhe sobrarem (se sobrarem) comprar alimento para o corpo. Como costuma dizer o velho engraxador, 'corpo são, mente sã'. Não é bem assim que dita a população, mas para ele é o mesmo, se um estiver bem, o outro também está e vice-versa. No fim do dia, caminhar mais uma hora, no seu passo lento e tremido, até casa, onde janta o que puder, sentado no seu pequeno sofá e assiste às telenovelas, que essas são fictícias, não o deixam transtornado, como as coisas que vê no noticiário.

Neste momento, o velho espera que acabem de mostrar essas mesmas notícias, que evita seis dias por semana, para ver o sorteio.

'É hoje, tenho a certeza que é hoje'.

Meia hora depois começa o sorteio. O velho está de olhar fixo no televisor, a sorrir e a segurar entre as mãos o papelinho com os números, que desde há 40 anos aposta. Hoje é o dia, tinha ele dito e com razão, os números do seu papel, finalmente coincidiram com os números que apareceram no televisor.
O velho engraxador já não treme.
Já está morto há meia hora.

sábado, 15 de outubro de 2011

escravatura cega

Estamos a ser escravizados, repito, estamos a ser escravizados!

Estamos a deixar que os soberanos senhores da tirania e da corrupção nos levem o nosso bem mais precioso, o nosso elixir da vida, estamos a vê-los afogar os nossos conterrâneos no mar da podridão. Estamos a ser induzidos em erro, estamos a ser manipulados de tal forma violenta, que reagimos com o espanto de quem leva uma bofetada na cara sem o merecer.

Estamos a ser escravizados, repito que estamos a ser escravizados!

Estamos a ser controlados de tal maneira que nem nos apercebemos da lavagem cerebral que sofremos ao longo dos séculos; a implacável tirania que nos seduziu e nos persuadiu a voltar costas
ao nosso direito natural, tão humanamente ridicularizado e menosprezado, tão estrategicamente mutilado, que nos faz crer que o possuímos. É mentira.

Estamos a ser escravizados, repito que estamos a ser escravizados!

Ouvimos a música mais feliz de que nos conseguimos lembrar, enquanto assistimos, de vendas nos olhos, à destruição da nossa casa.
Ouvimos as palavras reconfortantes dos nossos senhores, enquanto nos puxam os cordéis que nos mantêm de pé e nos esbofeteiam por prazer.
Somos marionetas vivas, bonecos de madeira que sonham em ser pessoas de carne e osso, somos a forma de escravatura mais cegamente controlada e nem força temos para tirar as venda dos olhos e ver que já não temos liberdade.

Estamos a ser escravizados, repito, estamos a ser escravizados!

domingo, 3 de julho de 2011

despertar dos sentidos

Por intermédio da doença, o corpo humano sofre alterações, torna-se mole, ressequido, fraco e amarelo de dor e desespero.
Nas horas de vazio e solidão o corpo ressente-se como se estivesse, de facto, enfermo.
Assim é, também, com a alma; o escuro do quarto onde se encontra o corpo, reflete-se na brancura cristalina da alma e ela fica cinzenta. Se tomadas medidas de desespero, como o forçar de um sorriso ou de uma fingida felicidade, a alma é trespassada por laminas de falsidade, ardentes e dolorosas e quer gritar, gritar até ao ponto de poder explodir em pequenos estilhaços. Mas não o faz, aguenta-se, 'só mais um pouco, eu resisto'.

Mas não resiste.

Ao fim de um tempo acaba sempre por gritar, o sufoco torna-se apertado demais para aguentar. Quando a alma grita, é um alivio enorme para o corpo, é o fim da falsidade e do mal-estar, aquele incómodo de não conseguir acomodar-se em lugar algum.
É um alivio da alma, é um alivio do corpo.
A pele começa a ganhar cor, a palidez transforma-se num tom rosado e fresco, os olhos ganham um brilho novo, os cabelos ganham uma suavidade sedosa, os músculos emergem do seu sono e espreguiçam-se graciosamente, as mãos ganham um novo tato, a boca um novo paladar, o nariz um novo olfato, os ouvidos uma nova audição e os olhos uma nova visão.
É o despertar dos sentidos novamente. É um 'olá' à vida em que, de vez em quando, todos tropeçamos.

Mais tarde ou mais cedo, acabamos por nos levantar.

sábado, 2 de abril de 2011

que desassossego não ter sossego!

Que desassossego este de não ter sossego num cansaço que não quer dormir. Que acordar tão desiludido por não estar a sonhar. Ouve-se o riso de uma criança ao longe. Tão longe... Espera-se pelo enfadonho destino que teima em aparecer à porta, com um contentamento desmedido, só para dizer, sussurrando 'apanhei-te'. Abre-se a janela para sentir a brisa da primavera, mas sente-se entrar nas narinas, tomar gosto na língua, queimar os olhos, aquele cheiro a podridão e excrementos que, invisivelmente, preenche as calçadas deste vosso Portugal. Ouve-se o riso de uma criança ao longe. Salto a janela infestada de sanguessugas e procuro nas ruelas, nas ruas, nas avenidas, nos becos mais escuros, debaixo das pontes, nas casas, nos prédios; mas ela está tão longe. Tão longe... Que desassossego contamina estas gentes de hoje! Que pesadelos assombram a tão incómoda dor de cabeça de quem não dorme por estar tão cansado.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Sou uma caixa de madeira oca.

Leio e releio e tudo me parece estranho, quase esquecido.
As letras, as palavras, as frases não me fazem o sentido único e inexplicável que outrora me preenchiam a vontade de saber.
Pego no meu caderno de suposições e tento impregná-lo de exclamações metafóricas. Mas as comparações não são idênticas ao sentido nelas investido; são antes realidades inatas; como um caixão à espera do seu imortal habitante, vazio, despojado de decorações fantasiosas e de recordações penosas.
É uma caixa de madeira oca.
Leio e releio e tudo me parece estranho, quase esquecido.
As memórias de antes não me preenchem o agora.
Pego no meu caderno de sonhos e tento depositar nele todos os meus triunfos e guardo-o como se fosse um álbum de fotografias, exposto aos olhos dos mais curiosos, dos mais caprichosos. Lançam-me olhares furtivo e inquisidores, ao verem partes do meu ser, ao verem o fracasso que chegou a mim sem se fazer anunciar.

Sou uma caixa de madeira oca.