segunda-feira, 21 de julho de 2025

Des-amor

(Quem nunca se apaixonou pela ideia que criou de alguém?
E quem nunca sentiu serem cortadas as asas das famosas borboletas que habitam na nossa barriga?
Quem nunca se despediu, sem saber soletrar a palavra "adeus" e sentiu aquele "qualquer coisa especial" esfumar-se no ar?)


O que fazemos com um sentimento que não nos pertence? Que não é nosso para o podermos oferecer a quem queremos?

Nem mesmo nós que o sentimos, o sabemos explicar; é um sentimento com vontade própria. O seu único desejo é ser entregue a outra pessoa, criar raízes noutro coração e lá ficar.

Mas o que fazemos quando o destinatário não está em casa para o receber?

Extravia-se.
Vagueia por aí, perdido e sozinho.
Tropeça nos próprios pés a tentar perceber onde errou.
Esfarrapa-se pelo chão e sente-se dorido e imundo.
Anseia por conforto.
Precisa do abraço aconchegante que só nós conseguimos dar.
Percorre ruas desertas à nossa procura e, por fim, regressa, todo ele desajeitado e envergonhado.
Pegamos nele com todo o cuidado para não o magoar mais.

Cuidamos.
Protegemos.

Mas ele já não é o mesmo; já não é leve e cheio de vida. Perdeu toda a pureza quando não foi aceite.
Fica a vergonha, a rejeição, ficam as feridas que demoram a sarar.
E depois surgem as cicatrizes que tanto incomodam e atormentam.

E o que nos acontece a nós, enquanto o sentimento vai na sua jornada?

Nós sentamo-nos à secretária e escrevemos um livro. 
Esquecemos tudo o resto.
Deixamos quase de respirar. 
Andamos distraídos a criar uma ideia para um amor que não existe.
Embriagamo-nos com palavras que não são destinadas aos nossos ouvidos e começamos a escrever um longo romance; páginas e páginas preenchidas com diálogos, aventuras e experiências que nunca irão ver o nascer do sol.
Por companhia temos apenas as borboletas - aquelas da barriga, que todos conhecemos - queremos mantê-las vivas, por isso, vamos dando-lhes migalhas feitas de sonhos como alimento (é só isso que temos).

E esperamos.

Ansiosos. Pacientes. Um misto de entusiasmo com receio, que se transforma num alvoroço de borboletas dentro de nós!
Até que um dia - como um raio que nos cai na cabeça! - ouvimos as palavras que são realmente destinadas a nós, aquelas menos bonitas, aquelas que quebram a janela entre a ilusão e a realidade, nos despem de tudo e nos dilaceram o coração.
O sentimento regressa a nós, frágil e desamparado.
Damos-lhe a mão e juntos choramos.
Passam-se noites intermináveis de insónias e desassossego.

Parecem não ter fim.

O tempo parece ficar suspenso num só momento. Numa só frase.

Só quando vemos o nosso reflexo nos estilhaços que ficaram caídos no chão quando o raio quebrou a ilusão, é que percebemos - apaixonámo-nos apenas por uma ideia que criámos. E é nesse momento que temos de dizer adeus, uma palavra que nos é desconfortável, mas inevitável. 

Por isso:
Guardamos o longo romance inacabado na estante.
Paramos de alimentar as borboletas.
Cobrimos o sentimento com uma manta.
Deitamos a cabeça na almofada, o mais serenamente possível.
E apagamos a luz.

Serão noites mais calmas agora.



quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

O Meu Demónio

Não sei nada sobre os demónios alheios.
Muitas vezes, nem sobre os meus sei.

Empregamos tantas palavras no dia-a-dia, mas saberemos realmente usá-las?
E o silêncio? Esse nada que surge no meio do nada, para nos sufocar no vazio e nos fazer sentir como nada.

(Confesso que tenho dificuldade em usar os dois.)

O silêncio fere tanto como as palavras.
Todos sabemos disso.
Trespassa a nossa pele como uma lâmina - fria e implacável. E sem volta atrás. Retiramos a lâmina, mas a ferida continua lá. Cicatrizamos, mas essa cicatriz lembra-nos sempre de quem empunhou a lâmina, de quem atribuiu mais poder ao demónio dos nossos pesadelos.

Eu passo as noites em corridas desenfreadas, a fugir do meu.

Não lhe conheço o rosto. É apenas um sorriso malicioso envolto em escuridão, que sussurra palavras incompreensíveis. 

Atravesso florestas inteiras, a correr, a ofegar e a gritar por ajuda. Mas não vem ninguém. E ele não pára. Não se cansa e não perde aquele sorriso que debocha de mim todas as vezes que fecho os olhos.

(Tenho medo de dormir.)

Acordo em pânico, as pernas bambas de tanto correr, a garganta seca e sem voz, de tanto gritar. Acordo sempre envolvida pela escuridão, e aos poucos começo a ver a luz da lua a surgir timidamente através dos contornos da janela. Também ela amedrontada.

A manhã vem sempre acompanhada pelo cansaço. O meu, não o dela. 

(Companheiro de toda a vida.)

Este é o meu demónio, sem algorias ou sujeito a qualquer interpretação. 


(Mudaria alguma coisa se soubéssemos dos demónios uns dos outros?)