quinta-feira, 23 de abril de 2015

Os Loucos

Vou descalça e de olhos vendados.
Caminho sozinha no meio deste turbilhão 
de passos apressados e fantasmagóricos.
São uma ilusão constante que me cega.

Não há tempo para aprender 
nem paciência para ensinar.
É um mundo agitado e distraído 
que não cede aos apelos dos loucos.

Ah os loucos!
Fazem conciliábulos com o silêncio
e tocam no tempo com as pontas dos dedos.
Soletram as palavras que ficam por dizer
e desligam interiormente a realidade.

A minha loucura prendi-a eu com cadeados velhos,
mas o mundano distrai-me,
então deixo-a sair ocasionalmente.
É um acordo mútuo onde ninguém ganha.

Ah ser louco e ser livre!
Fazer palestras silenciosas com charadas mal decifradas
e beijar o escuro da noite que me mantém míope,
sem com isso me importar.

É um mundo totalitariamente sóbrio 
de tão ébrio que está,
um mundo insensível e detestável,
este que me venda os olhos e me descalça.

E ainda dizem que os loucos 
são aqueles poucos errantes
que fazem buracos nas vendas 
e calçam meias.

domingo, 5 de abril de 2015

Encruzilhada

Deixei-me levar por esse instante, que sem eu notar, já tinha desaparecido.
Foi como se me perdesse numa encruzilhada; 
não sabia o rumo a seguir, então foi por instinto que continuei.
Foi um simples capricho da vontade.
A noite trazia consigo um turbilhão de desejos e quereres.
Eram noites preenchidas pelo silêncio dos olhares discretos
e pelo acaso dos encontros às escuras.
Mas o pensar não descansa;
este insaciável saber que tudo sabe.
Os dias trouxeram consigo a certeza do vazio que sempre fica.
Esta certeza imutável de pensamentos que não passam disso.
Refiz os meus passos e voltei atrás.
Aqui me espera o rei das encruzilhadas, de pergaminho e pena na mão,
pronto para assinar um acordo.
Ele sabe que já percorri os dois caminhos que se me depararam,
ele sabe qual é o mais apelativo.
Mas também sabe qual é o mais sinuoso, o mais tortuoso.
Regozija de prazer com a minha eterna incerteza.
Quero ceder ao instinto da vontade, 
quero trazer de volta este impulsivo silêncio do acaso,
esta chama que arde solitária por dentro.
Mas foi apenas um instante.
Instante esse que cedeu o seu lugar de honra à monótona certeza,
à inegável verdade do nada.
Este nada que sempre fica.