domingo, 11 de novembro de 2012

Morro aqui

Hoje passei na rua das prostitutas.
Solene e paciente lá estava ela.
Emanava um brilho fugidio, como o orvalho primaveril nas folhas de um jardim.
Passo lá, pelo menos uma vez por semana.
Passo lá por passar, passo lá para a admirar, para a contemplar na rapidez de uma passagem.
Desacelero o carro ao chegar à curva e passo por ela com lentidão.
Ai de mim quando a vejo!
Pudera eu despi-la da plasticidade que a compõe, limpar-lhe suavemente o rosto e traja-la de branco,
e ela seria a visão imaculada da pureza e da perfeição.
Depois, pegar-lhe-ia na mão e sussurrar-lhe-ia palavras de carinho e admiração.
Ai de mim quando sonho!
Tivesse eu cruzado caminho com ela, ainda éramos crianças de berço e hoje estaríamos de mãos dadas.
Ah, infeliz de mim que não lhe posso tocar!
Triste de mim que não posso perder-me no brilho dos seus olhos!
Resigno-me apenas a imaginar a sua profundidade, a chama que arde no seu coração por ser tão amada.
Mas...
Em vez da beleza do amor, recebo um destino acidentado e sangrento.
A pressa de chegar antes esbarra comigo, na sua frente.
Sou projetado e travado ao mesmo tempo, fico internamente despedaçado.
Ela vê o meu sangue, pela primeira vez vê os destroços daquilo que ainda há pouco fui e a piedade do seu olhar contradiz o sorriso do seu rosto.
Esquartejado e mutilado morro aqui.
Morro com os seus olhos postos em mim.
Mas, antes de morrer, retribuo-lhe o sorriso.

sábado, 11 de agosto de 2012

'ELES'

Ele chegou a casa com um sentimento de descontração que já não sentia há muitos anos.
Era já noite fechada e o silêncio reinava na rua.
O tempo estava ameno, com uma brisa fresca que relaxava os músculos, quase até à dormência.

Ele não se lembrava onde tinha estado até então, nem como tinha vindo parar à porta de sua casa, no sétimo andar de um prédio, sempre muito movimentado. Mas não importava. Nem se apercebeu do silêncio que habitava no prédio. Estava em estado de transe e mais nada importava.
De olhos fechados e com um sorriso nos lábios, ele inseriu a chave na ranhura e destrancou a porta. Entrou em casa.
Olhou em redor e notou pequenas diferenças na disposição dos móveis e dos objetos. Não se lembrava de ter comprado uma televisão plasma, nem o telemóvel 'touch' que trazia no bolso das calças, nem dos restantes objetos eletrónicos que se encontravam dispersos pela casa. Estranhou, mas não se importou. Não sabia o que tinha acontecido com ele, desde que saiu de casa de manhã, mas não havia problema; a sensação de confiança e bem-estar que sentia estavam acima do sentimento de estranheza que teimava em espreitar. Naquele momento, sentia-se protegido, confiava cegamente no mundo que o rodeava.

Virou a esquina do corredor até ao seu quarto e abriu a porta com um sorriso. Sentiu um forte impacto contra o seu nariz, que o fez girar para o lado contrário e cair. De olhos fechados, pôs as mãos na cabeça e, na escuridão que encobria a sua visão, podia jurar que viu estrelas, pequenos pontos brancos num céu negro.
A descontração que sentia evaporou-se instantaneamente e foi trocada por uma sensação de confusão e desconforto, já para não falar de uma dor latejante no nariz e na cabeça. Agarrado ao nariz, abriu os olhos e viu à sua frente, de punho em riste, um homem, cabeludo e com uns olhos alucinados, que o olhava com um misto de desorientação, expectativa e curiosidade.
- Mas que raio??!! - gritou.
- Meu, 'tás a ser controlado, meu, 'tamos a ser todos controlados. Não 'tas a ver, meu? - o outro começou a andar de um lado para o outro, fazendo gestos frenéticos com as mãos. Parecia um macaco aos saltos a falar um qualquer idioma primitivo. - Eles vêm tudo, meu, eles sabem tudo. ELES QUEREM TUDO!! Vamos morrer todos, meu, temos de fazer alguma coisa, senão morremos todos, meu.

Enquanto o outro proferia frases soltas, ele levantou-se, apoiado à parede e limpou o sangue do nariz à manga da camisa.
- Quem és tu? Que estás aqui a fazer?
- Quem sou eu? Quem sou EU? Quem és TU? - disse o outro olhando-o de alto a baixo, como se o visse agora pela primeira vez.
- Invadiste a minha casa, deste-me um murro no nariz, estás para aí a dizer parvoíces e ainda me perguntas quem sou eu, como se EU fosse O maluco?! Tu és doido, pá! Sai da minha casa!
- Meu, não 'tas a perceber, eu vim ajudar-te. O murro foi pra te acordar, meu. Estavas a ser controlado, ESTAMOS a ser controlados, meu, temos de nos ajudar uns aos outros, senão morremos, morremos todos, meu.
O outro agarrou-o pelos ombros e começou a abaná-lo freneticamente.
- Acorda, meu, acorda!! Olha à tua volta; tecnologias meu, tecnologias!! Pra que queres tu tantos aparelhos? Metade deles nem sabes pra que foram feitos. Dinheiro, meu, DINHEIRO!!
- Larga-me anormal! - ele desembaraçou-se do outro com um empurrão, que o fez cair por cima da secretária que se encontrava a um canto. O outro bateu com a cabeça na esquina e fez um corte na testa, de onde começou a escorrer sangue.
- Meu... Meu, acorda... Eles controlam-te... Eles fazem 'gato-sapato' de ti e tu deixas, meu... Acorda... Eles metem-te 'chips' na cabeça e controlam-te, meu... Eles sabem onde vais, quando vais, com quem 'tas, o que 'tas a fazer, meu... E eles tiram-te tudo... Tu nem dás conta, meu, eles dizem que é pra teu bem e tu acreditas, meu... - o outro agarrou-o pela manga da camisa, enquanto balbuciava - Não deixes, meu, não deixes, não deixes que eles te matem...
- Queres saber? - disse ele, levantando-se bruscamente - Eu não me importo. Sabes porquê? Porque 'ELES', como tu dizes, tomam conta de mim. Providenciam-me tudo o que eu preciso para viver. Dão-me comida, roupa, casa, transporte, diversão... É claro que tenho de pagar, na vida nada é de graça, mas o dinheiro não é o mais importante, o importante é VIVER!
- E vives, meu? Vives REALMENTE?
O outro deixou escapar o último suspiro enquanto fechava os olhos.

Ele virou costas e foi até à cozinha. Pegou num copo e encheu-o com água da torneira. Pensava enquanto bebia. 'Quero de volta a sensação de relaxamento que sentia quando cheguei a casa.'
Nesse instante ouviu a porta da entrada a abrir, era a sua namorada que chegava a casa. Ela entrou, fechou a porta e dirigiu-se pelo corredor em direção ao quarto.
- Não entres aí! - gritou ele.
Mas ela não o ouviu e entrou no quarto.
Ela deu um grito e ele correu atrás dela. Quando chegou à porta do quarto e olhou para o homem deitado no chão, reconheceu-o. A escorrer sangue pela cabeça, sem barba e com o seu telemóvel 'touch' a sair do bolso das calças.
Ele deixou cair o copo no chão e chamou o nome dela.

Mas ela já não o ouvia.

terça-feira, 12 de junho de 2012

não sou.

Sou o que não fui e o que não serei.
Sou o tédio entre o pensar e o fazer.
Sou a chávena partida no canto do armário.
Sou o pássaro que caiu do ninho e não encontra o caminho de volta a casa.
Sou o vagabundo que mendiga por migalhas.
Sou o vazio entre a razão e a selvajaria.
Hoje sou o todo do meu nada,
amanhã serei o nada que existe entre tudo.

sábado, 17 de março de 2012

desacerto

Sinto uma estranheza dentro de mim, como se um outro alguém penetrasse no mais fundo de mim
e o reclamasse como seu e o controlasse descontroladamente.
Padeço da doença da solidão compenetrada, do desejo de preenchimento da alma.
Sou recetiva à mudança, mas fica difícil transmitir a ideia para uma atitude diferente daquela
a que o meu interior consente.
Fico desconcertada pela rebeldia do meu intimo e mais ainda pela desconfiança que isso me transmite.
Perco-me no seu desacerto e deixo-me atrair no seu contexto.
Gosto e preciso de mais.
Mas acordo sem lhe tomar o gosto.
Não sei o que é, simplesmente me fascina.

quinta-feira, 15 de março de 2012

palavras

Careço de palavras.
Elas estão cá, tenho em mim o seu significado, tenho em mim a intenção de as proferir,
mas, algures a meio caminho, entre o cérebro e a língua,
elas ficam para trás, perdidas, baralhadas e vazias.
Dou por mim extática, numa inconsciência de ser, só porque não tenho palavras.
Porque não tenho a dor que dita os sonhos, não tenho o sofrido desespero da imaginação,
tenho antes esta insónia infindável e descontrolada que rege o meu cansaço.
Careço de palavras porque, apesar dos inúmeros sinónimos, o cansaço vem sempre sozinho,
entedia-se com as palavras que lhe roubem o significado.
Careço de palavras porque elas adormecem quando deveriam sair do seu casulo.
Apodrecem lá dentro e desmantelam-se aos poucos.
Fica, então, o vazio. E é só.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

viver

Vivo morta nas lembranças de um passado mal vivido,
de um 'aconteceu, já não volta atrás'.
Vivo sem saber o que é viver,
vivo somente por saber como é respirar.

Vivo amargamente uma quietude embriagante,
um cansaço constante,
um entorpecimento da mente,
um abandono profundo da vontade,
uma preguiça do corpo que desafia a mente em duelos de força.

É, por isso, ao mesmo tempo um desassossego na alma,
uma azáfama delirante nos pensamentos,
que esbarram uns nos outros,
sem vontade de ficar em último plano.

E sonho..

Sonho por não saber viver,
sonho porque é a dormir,
mergulhada numa inconsciência sabida,
que me sinto reconfortada.

É nos sonhos que eu vivo;
salto, corro, falo, ouço, luto, amo, minto e engano e grito,
grito até me perder no eco mudo das minhas palavras.
São só isso, palavras, mas por vezes pesam tanto
que forçosamente os nossos joelhos cedem até ao chão duro.

E acordo com um cansaço desumano,
uma vontade de não ter vontade.
Vivo cansada no seio deste mundo enfermo.
Vivo desgastada por não saber o que é um sono bem dormido.