Hoje passei na rua das prostitutas.
Solene e paciente lá estava ela.
Emanava um brilho fugidio, como o orvalho primaveril nas folhas de um jardim.
Passo lá, pelo menos uma vez por semana.
Passo lá por passar, passo lá para a admirar, para a contemplar na rapidez de uma passagem.
Desacelero o carro ao chegar à curva e passo por ela com lentidão.
Ai de mim quando a vejo!
Pudera eu despi-la da plasticidade que a compõe, limpar-lhe suavemente o rosto e traja-la de branco,
e ela seria a visão imaculada da pureza e da perfeição.
Depois, pegar-lhe-ia na mão e sussurrar-lhe-ia palavras de carinho e admiração.
Ai de mim quando sonho!
Tivesse eu cruzado caminho com ela, ainda éramos crianças de berço e hoje estaríamos de mãos dadas.
Ah, infeliz de mim que não lhe posso tocar!
Triste de mim que não posso perder-me no brilho dos seus olhos!
Resigno-me apenas a imaginar a sua profundidade, a chama que arde no seu coração por ser tão amada.
Mas...
Em vez da beleza do amor, recebo um destino acidentado e sangrento.
A pressa de chegar antes esbarra comigo, na sua frente.
Sou projetado e travado ao mesmo tempo, fico internamente despedaçado.
Ela vê o meu sangue, pela primeira vez vê os destroços daquilo que ainda há pouco fui e a piedade do seu olhar contradiz o sorriso do seu rosto.
Esquartejado e mutilado morro aqui.
Morro com os seus olhos postos em mim.
Mas, antes de morrer, retribuo-lhe o sorriso.
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