Amanhã já não estamos cá.
Muitos de nos já partiram: pais, mães, irmãos, tios e primos e amigos - os melhores, mas também os outros; aqueles que andaram connosco na escola, nos diziam olá nos intervalos com um sorriso rasgado, como se fôssemos todos irmãos e principalmente aqueles de brilho no olhar e ideias revolucionárias nas mentes. Estes voltam agora sem luz ou sonhos a acompanhá-los, voltam sós e sozinhos vão, já não há nada para eles cá. Os que ficaram foi por falta de ambição ou motivação, como lhe queiram chamar ou então foi por acreditarem que não havia motivo para preocupações.
Talvez não haja, quem sou eu para dizer quais são os purgatórios de cada um.
Ou talvez haja, talvez estejamos famintos e sedentos e não resta nenhuma alma caridosa que cuide de nós.
Amanhã já não resta ninguém.
É uma terra seca, povoada por doutores e engenheiros, que ficaram a limpar a imundice de outros doutores e engenheiros.
Os que partiram foram limpar as retretes dos senhores trabalhadores; aqueles que fazem andar os países, vendo bem, não havia necessidade de partirem; também temos por cá retretes e merda dos outros para limpar. Nem precisamos de sair de casa para isso.
Mas amanhã já não estamos cá.
Amanhã já nada disto é nosso, amanhã os outros vão tomar posse daquilo a que hoje chamamos 'casa'. Pensando bem, nunca foi nossa, nada do que pensamos possuir algum dia foi verdadeiramente nosso.
Mas nada disso interessa agora, porque amanhã já não estamos cá, vamos partir, sem deixar descendência a proteger a 'nossa casa'.
Não deixaremos nenhum legado, pelo menos não aqui. Não no meio desta sujidade, deste lixo que corre nas ruas.
Por hoje ficamos, mas amanhã partimos, os poucos de nós que ainda cá estão, os poucos que ainda resistem.