segunda-feira, 13 de outubro de 2014

amanhã partimos

Não há revoluções, nem manifestações, petições ou quaisquer outros 'ões' de que vos possam lembrar que nos valham.  

Amanhã já não estamos cá.  

Muitos de nos já partiram: pais, mães, irmãos, tios e primos e amigos - os melhores, mas também os outros; aqueles que andaram connosco na escola, nos diziam olá nos intervalos com um sorriso rasgado, como se fôssemos todos irmãos e principalmente aqueles de brilho no olhar e ideias revolucionárias nas mentes. Estes voltam agora sem luz ou sonhos a acompanhá-los, voltam sós e sozinhos vão, já não há nada para eles cá. Os que ficaram foi por falta de ambição ou motivação, como lhe queiram chamar ou então foi por acreditarem que não havia motivo para preocupações.  
Talvez não haja, quem sou eu para dizer quais são os purgatórios de cada um. 
Ou talvez haja, talvez estejamos famintos e sedentos e não resta nenhuma alma caridosa que cuide de nós. 

Amanhã já não resta ninguém. 

É uma terra seca, povoada por doutores e engenheiros, que ficaram a limpar a imundice de outros doutores e engenheiros.  
Os que partiram foram limpar as retretes dos senhores trabalhadores; aqueles que fazem andar os países, vendo bem, não havia necessidade de partirem; também temos por cá retretes e merda dos outros para limpar. Nem precisamos de sair de casa para isso. 

Mas amanhã já não estamos cá.  

Amanhã já nada disto é nosso, amanhã os outros vão tomar posse daquilo a que hoje chamamos 'casa'. Pensando bem, nunca foi nossa, nada do que pensamos possuir algum dia foi verdadeiramente nosso. 
Mas nada disso interessa agora, porque amanhã já não estamos cá, vamos partir, sem deixar descendência a proteger a 'nossa casa'.  
Não deixaremos nenhum legado, pelo menos não aqui. Não no meio desta sujidade, deste lixo que corre nas ruas.  

Por hoje ficamos, mas amanhã partimos, os poucos de nós que ainda cá estão, os poucos que ainda resistem.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Princípio, Meio e Fim

Nunca sei começar e o final apresenta sempre sinais de morte ou melancolia mal encarada.
O meio é como a vida; imprevisível e espontâneo, surge o que tiver de surgir
e remedeio os erros com os farrapos que me compõem o ser.
São trapos gastos e sujos, não se incomodam em ser apenas remendos.
Nunca sei começar e quando o faço é somente com a ideia translúcida do seu fim,
do seu pesaroso fim,
que me deixa sempre incomodada e ao mesmo tempo aliviada por ter acabado..

Coração Cansado

Ás vezes sinto este desconforto no peito, como se não tivesse coração, ou se, por tê-lo,
sinto-o bater descompassadamente. 
Não é bem uma dor; será que podemos afirmar que nos dói verdadeiramente o coração?
É mais um peso que me fica, que esmorece e torna a surgir.
É um cansaço, só e apenas.
Até este órgão, por vezes, nos pesa e nem nos apercebemos, por estarmos tão habituados a senti-lo.
A mim dói.
É uma dor que não chega a conhecer a Dor,
é uma música sem ritmo e uma tela em branco.
É a falta de descanso, que por não poder descansar, por vezes, fica sem fôlego,
não pode dormir nem repousar a cabeça na almofada e sonhar tranquilamente.
Já disse que é uma dor, mas não o posso afirmar com a certeza das certezas, 
sei apenas que ele desfalece sem avisar e causa este desconforto e quando volta a si, 
já não sabe fazer o seu trabalho.
É um coração cansado, só e apenas.