A dor entrou devagar.
Ficou tanto tempo que tive de lhe abrir espaço dentro de mim.Instalou-se sem demoras e aprendeu a respirar comigo.
(Queima a pele,
Envenena o sangue,
Corrói o cérebro!)
Durante muito tempo, tentei lutar contra ela, expulsá-la das minhas entranhas.
Mas ela foi crescendo comigo.
E perdi a memória de quem era antes dela.
(Aceito a dor por cansaço)
Ensinou-me a sobreviver.
Ensinou-me a continuar, mesmo despedaçada.
Tornou-se casa.
Tornou-se conforto.
Tornou-se uma extensão de mim.
A sua ausência tornar-se-ia num vazio indecifrável.
Vivo acorrentada a ela e já não sei se as correntes me prendem ou se me mantêm inteira.