Quanto mais escrevia, mais vontade tinha de despejar no papel todas as palavras que lhe vinham à cabeça.
Muitas das frases não faziam sentido, pelo menos para quem as lia à superfície, mas, para ele, eram a sua mente, eram fragmentos da sua consciência insatisfeita, colocados aleatoriamente numa folha branca.
Não sabia explicar porque sentiu esse súbito desejo de se expressar pela escrita. Não era, de todo, o seu forte. Tinha os pensamentos demasiado desorganizados para os transmitir correctamente, para construír as histórias que lhe surgiam durante as noites passadas acordado, a olhar para o vazio e a imaginar as várias possibilidades dos 'e se...'.
Mas, agora que tinha começado essa diligência, não conseguia parar, mesmo que fosse só para riscar palavras já escritas e substituí-las por outras.
Chegava a pensar que estava preso ao desejo de ser compreendido, de deixar para trás algo que, mesmo remotamente, fizesse as pessoas lembrarem-se quem ele era. No entanto, sabia que não era esse o motivo genuíno para que, todas as noites, pegasse no seu bloco de notas e escrevesse. Se assim fosse, escreveria apenas sobre as maravilhas do mundo, deixaria mensagens de conforto e esperança e, sobretudo, dsenharia floreados em torno da sua pessoa, para que fosse recordado com carinho.
Não. Não era esse o motivo.
Outra das possibilidades e, talvez, a mais plausível, para ele, era o facto de se sentir tão só. Tinha necessidade de se expressar, de falar, muitas vezes deu consigo com vontade de gritar! Tinha medo da solidão, como um supersticioso tem medo de gatos pretos. Queria estar sozinho, mas não queria estar sozinho. Tinha medo da escuridão que envolvia o seu quarto à noite; as paredes vazias, o tecto como horizonte, a janela que escondia o mundo, com os seus cortinados espessos e a porta fechada, que não levava a lugar nenhum.
Ou então, pensava demasiado. A sua mente já não suportava albergar tantos pensamentos de uma só vez e sentia necessidade de se expurgar do excesso.
De qualquer forma, naquele momento, o que importava não era o motivo. Também não lhe interessava o que escrevia. Queria simplesmente ver as palavras ganharem forma no papel.
domingo, 1 de maio de 2016
domingo, 17 de janeiro de 2016
O Desgosto
Acordou com um desgosto na cabeça.
Não é o do coração, que esse sofre de amores que não são para aqui chamados.
É na cabeça mesmo. No cruzamento entre a emoção e a razão. Não se deixe enganar quem pensa que as emoções estão no coração. Não. Está tudo na cabeça.
Mas, como estava a dizer, acordou com um desgosto na cabeça.
Não o sentiu chegar, tampouco previu que iria ficar assim destroçado, de um momento para o outro. Foi literalmente de um momento para o outro!
Apercebeu-se apenas de um vazio na mente, como se lhe tivessem roubado os pensamentos.
Já dizia o poeta - certamente sabia do que falava - que "pensar incomoda como andar à chuva".
Os Pensamentos.
Toda a gente os tem, uns mais organizados do que outros, uns mais lógicos, outros mais inocentes e até mesmo os mais depravados. Chega sempre o dia em que pensamos todos o mesmo tipo de pensamento, é como se abríssemos uma gaveta, selecionamos um ficheiro e lemos as regras de funcionamento de cada um. Mas pareceu-lhe ter a gaveta vazia, a sua mente estava leve e o seu corpo pesado.
Por esta razão acordou com um desgosto na cabeça.
Sentiu a tristeza, a solidão e o vazio - companheiros inseparáveis - percorrerem-lhe, não o corpo, muito menos o coração, mas, sim, a própria mente. Foi-lhe negado, assim, o seu refúgio privado: o pensar, que tantas vezes o incomodava, tantas vezes o distraía, tantas vezes o magoava.
Sentia falta dessa confusão.
Por isso é que tinha um desgosto na cabeça.
Lembrou-se do vazio enorme dentro de si.
Não é o do coração, que esse sofre de amores que não são para aqui chamados.
É na cabeça mesmo. No cruzamento entre a emoção e a razão. Não se deixe enganar quem pensa que as emoções estão no coração. Não. Está tudo na cabeça.
Mas, como estava a dizer, acordou com um desgosto na cabeça.
Não o sentiu chegar, tampouco previu que iria ficar assim destroçado, de um momento para o outro. Foi literalmente de um momento para o outro!
Apercebeu-se apenas de um vazio na mente, como se lhe tivessem roubado os pensamentos.
Já dizia o poeta - certamente sabia do que falava - que "pensar incomoda como andar à chuva".
Os Pensamentos.
Toda a gente os tem, uns mais organizados do que outros, uns mais lógicos, outros mais inocentes e até mesmo os mais depravados. Chega sempre o dia em que pensamos todos o mesmo tipo de pensamento, é como se abríssemos uma gaveta, selecionamos um ficheiro e lemos as regras de funcionamento de cada um. Mas pareceu-lhe ter a gaveta vazia, a sua mente estava leve e o seu corpo pesado.
Por esta razão acordou com um desgosto na cabeça.
Sentiu a tristeza, a solidão e o vazio - companheiros inseparáveis - percorrerem-lhe, não o corpo, muito menos o coração, mas, sim, a própria mente. Foi-lhe negado, assim, o seu refúgio privado: o pensar, que tantas vezes o incomodava, tantas vezes o distraía, tantas vezes o magoava.
Sentia falta dessa confusão.
Por isso é que tinha um desgosto na cabeça.
Lembrou-se do vazio enorme dentro de si.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2016
Ah a pressa!
Ah a pressa!
Como é possível que, com tantos mecanismos e tecnologias desenhados para nos facilitar a vida,
as pessoas parecem ter cada vez mais pressa?
Têm ânsia em fazer e querem ser os primeiros a dizer;
têm pressa de sair e pressa de chegar.
Só não têm pressa de ficar.
Já não há tempo para o que é importante - já não há tempo para nada!
É uma azáfama desenfreada como nunca se viu.
Sempre me fizeram impressão, uma ligeira comichão nas pontas dos dedos - as multidões.
São os sentidos a tropeçar uns nos outros, por serem estimulados ao mesmo tempo,
não sabem qual deles deve agir primeiro.
É neste estado de desorientação que me sinto quando estou rodeada por pessoas.
É uma impaciência contínua que me desalinha a atenção e despedaça a cortesia.
Como é possível que, com tantos mecanismos e tecnologias desenhados para nos facilitar a vida,
as pessoas parecem ter cada vez mais pressa?
Têm ânsia em fazer e querem ser os primeiros a dizer;
têm pressa de sair e pressa de chegar.
Só não têm pressa de ficar.
Já não há tempo para o que é importante - já não há tempo para nada!
É uma azáfama desenfreada como nunca se viu.
Sempre me fizeram impressão, uma ligeira comichão nas pontas dos dedos - as multidões.
São os sentidos a tropeçar uns nos outros, por serem estimulados ao mesmo tempo,
não sabem qual deles deve agir primeiro.
É neste estado de desorientação que me sinto quando estou rodeada por pessoas.
É uma impaciência contínua que me desalinha a atenção e despedaça a cortesia.
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