domingo, 17 de janeiro de 2016

O Desgosto

Acordou com um desgosto na cabeça.
Não é o do coração, que esse sofre de amores que não são para aqui chamados. 
É na cabeça mesmo. No cruzamento entre a emoção e a razão. Não se deixe enganar quem pensa que as emoções estão no coração. Não. Está tudo na cabeça. 
Mas, como estava a dizer, acordou com um desgosto na cabeça. 
Não o sentiu chegar, tampouco previu que iria ficar assim destroçado, de um momento para o outro. Foi literalmente de um momento para o outro! 
Apercebeu-se apenas de um vazio na mente, como se lhe tivessem roubado os pensamentos. 
Já dizia o poeta - certamente sabia do que falava - que "pensar incomoda como andar à chuva". 
Os Pensamentos. 
Toda a gente os tem, uns mais organizados do que outros, uns mais lógicos, outros mais inocentes e até mesmo os mais depravados. Chega sempre o dia em que pensamos todos o mesmo tipo de pensamento, é como se abríssemos uma gaveta, selecionamos um ficheiro e lemos as regras de funcionamento de cada um. Mas pareceu-lhe ter a gaveta vazia, a sua mente estava leve e o seu corpo pesado. 
Por esta razão acordou com um desgosto na cabeça. 
Sentiu a tristeza, a solidão e o vazio - companheiros inseparáveis - percorrerem-lhe, não o corpo, muito menos o coração, mas, sim, a própria mente. Foi-lhe negado, assim, o seu refúgio privado: o pensar, que tantas vezes o incomodava, tantas vezes o distraía, tantas vezes o magoava. 
Sentia falta dessa confusão. 
Por isso é que tinha um desgosto na cabeça.

 Lembrou-se do vazio enorme dentro de si.

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