Acordou com um desgosto na cabeça.
Não é o do
coração, que esse sofre de amores que não são para aqui chamados.
É na cabeça mesmo. No cruzamento entre a emoção e a razão. Não se deixe
enganar quem pensa que as emoções estão no coração. Não. Está tudo na
cabeça.
Mas, como estava a dizer, acordou com um desgosto na cabeça.
Não o sentiu
chegar, tampouco previu que iria ficar assim destroçado, de um
momento para o outro. Foi literalmente de um momento para o outro!
Apercebeu-se apenas de um vazio na mente, como se lhe tivessem roubado
os pensamentos.
Já dizia o poeta - certamente sabia do que falava - que "pensar incomoda
como andar à chuva".
Os Pensamentos.
Toda a gente os tem, uns mais organizados do que outros, uns mais
lógicos, outros mais inocentes e até mesmo os mais depravados. Chega
sempre o dia em que pensamos todos o mesmo tipo de pensamento, é como se abríssemos uma gaveta, selecionamos um ficheiro e lemos as regras de
funcionamento de cada um.
Mas pareceu-lhe ter a gaveta vazia, a sua mente estava leve e o seu
corpo pesado.
Por esta razão acordou com um desgosto na cabeça.
Sentiu a tristeza, a solidão e o vazio - companheiros inseparáveis -
percorrerem-lhe, não o corpo, muito menos o coração, mas, sim, a
própria mente. Foi-lhe negado, assim, o seu refúgio privado: o pensar,
que tantas vezes o incomodava, tantas vezes o distraía, tantas vezes
o magoava.
Sentia falta dessa confusão.
Por isso é que tinha um desgosto na cabeça.
Lembrou-se do vazio enorme dentro de si.
domingo, 17 de janeiro de 2016
quinta-feira, 7 de janeiro de 2016
Ah a pressa!
Ah a pressa!
Como é possível que, com tantos mecanismos e tecnologias desenhados para nos facilitar a vida,
as pessoas parecem ter cada vez mais pressa?
Têm ânsia em fazer e querem ser os primeiros a dizer;
têm pressa de sair e pressa de chegar.
Só não têm pressa de ficar.
Já não há tempo para o que é importante - já não há tempo para nada!
É uma azáfama desenfreada como nunca se viu.
Sempre me fizeram impressão, uma ligeira comichão nas pontas dos dedos - as multidões.
São os sentidos a tropeçar uns nos outros, por serem estimulados ao mesmo tempo,
não sabem qual deles deve agir primeiro.
É neste estado de desorientação que me sinto quando estou rodeada por pessoas.
É uma impaciência contínua que me desalinha a atenção e despedaça a cortesia.
Como é possível que, com tantos mecanismos e tecnologias desenhados para nos facilitar a vida,
as pessoas parecem ter cada vez mais pressa?
Têm ânsia em fazer e querem ser os primeiros a dizer;
têm pressa de sair e pressa de chegar.
Só não têm pressa de ficar.
Já não há tempo para o que é importante - já não há tempo para nada!
É uma azáfama desenfreada como nunca se viu.
Sempre me fizeram impressão, uma ligeira comichão nas pontas dos dedos - as multidões.
São os sentidos a tropeçar uns nos outros, por serem estimulados ao mesmo tempo,
não sabem qual deles deve agir primeiro.
É neste estado de desorientação que me sinto quando estou rodeada por pessoas.
É uma impaciência contínua que me desalinha a atenção e despedaça a cortesia.
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