Muitas vezes, nem sobre os meus sei.
E o silêncio? Esse nada que surge no meio do nada, para nos sufocar no vazio e nos fazer sentir como nada.
(Confesso que tenho dificuldade em usar os dois.)
Trespassa a nossa pele como uma lâmina - fria e implacável. E sem volta atrás. Retiramos a lâmina, mas a ferida continua lá. Cicatrizamos, mas essa cicatriz lembra-nos sempre de quem empunhou a lâmina, de quem atribuiu mais poder ao demónio dos nossos pesadelos.
Eu passo as noites em corridas desenfreadas, a fugir do meu.
Não lhe conheço o rosto. É apenas um sorriso malicioso envolto em escuridão, que sussurra palavras incompreensíveis.
Atravesso florestas inteiras, a correr, a ofegar e a gritar por ajuda. Mas não vem ninguém. E ele não pára. Não se cansa e não perde aquele sorriso que debocha de mim todas as vezes que fecho os olhos.
(Tenho medo de dormir.)
Acordo em pânico, as pernas bambas de tanto correr, a garganta seca e sem voz, de tanto gritar. Acordo sempre envolvida pela escuridão, e aos poucos começo a ver a luz da lua a surgir timidamente através dos contornos da janela. Também ela amedrontada.
A manhã vem sempre acompanhada pelo cansaço. O meu, não o dela.
(Companheiro de toda a vida.)
Este é o meu demónio, sem algorias ou sujeito a qualquer interpretação.
(Mudaria alguma coisa se soubéssemos dos demónios uns dos outros?)