domingo, 24 de maio de 2026

Tormento

A dor entrou devagar.

Ficou tanto tempo que tive de lhe abrir espaço dentro de mim.
Instalou-se sem demoras e aprendeu a respirar comigo.

(Queima a pele,
Envenena o sangue,
Corrói o cérebro!)


Durante muito tempo, tentei lutar contra ela, expulsá-la das minhas entranhas.
Mas ela foi crescendo comigo.
E perdi a memória de quem era antes dela.

(Aceito a dor por cansaço)

Ensinou-me a sobreviver.
Ensinou-me a continuar, mesmo despedaçada.
Tornou-se casa.
Tornou-se conforto.
Tornou-se uma extensão de mim.

A sua ausência tornar-se-ia num vazio indecifrável.

Vivo acorrentada a ela e já não sei se as correntes me prendem ou se me mantêm inteira.

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