Por intermédio da doença, o corpo humano sofre alterações, torna-se mole, ressequido, fraco e amarelo de dor e desespero.
Nas horas de vazio e solidão o corpo ressente-se como se estivesse, de facto, enfermo.
Assim é, também, com a alma; o escuro do quarto onde se encontra o corpo, reflete-se na brancura cristalina da alma e ela fica cinzenta. Se tomadas medidas de desespero, como o forçar de um sorriso ou de uma fingida felicidade, a alma é trespassada por laminas de falsidade, ardentes e dolorosas e quer gritar, gritar até ao ponto de poder explodir em pequenos estilhaços. Mas não o faz, aguenta-se, 'só mais um pouco, eu resisto'.
Mas não resiste.
Ao fim de um tempo acaba sempre por gritar, o sufoco torna-se apertado demais para aguentar. Quando a alma grita, é um alivio enorme para o corpo, é o fim da falsidade e do mal-estar, aquele incómodo de não conseguir acomodar-se em lugar algum.
É um alivio da alma, é um alivio do corpo.
A pele começa a ganhar cor, a palidez transforma-se num tom rosado e fresco, os olhos ganham um brilho novo, os cabelos ganham uma suavidade sedosa, os músculos emergem do seu sono e espreguiçam-se graciosamente, as mãos ganham um novo tato, a boca um novo paladar, o nariz um novo olfato, os ouvidos uma nova audição e os olhos uma nova visão.
É o despertar dos sentidos novamente. É um 'olá' à vida em que, de vez em quando, todos tropeçamos.
Mais tarde ou mais cedo, acabamos por nos levantar.
É o despertar dos sentidos novamente. É um 'olá' à vida em que, de vez em quando, todos tropeçamos.
Mais tarde ou mais cedo, acabamos por nos levantar.
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