sábado, 15 de agosto de 2015

Cidade em Chamas

Era tarde.

Não sabia que horas eram, mas, também não lhe interessava, a própria ideia de pensar no tempo causava-lhe náuseas.

Só sabia que era tarde.
Tinha sido um daqueles dias de calor infernal, o ar abafado impregnado em tudo o que tocava.
Era difícil estar concentrado, o calor impedia os seus movimentos e até respirar o deixava cansado.
Sentia a cabeça pesada quando se sentou no sofá desgastado, com um copo de whisky numa mão e a garrafa na outra. Muito pausadamente, como se se movimentasse em câmara lenta, pousou a garrafa no chão, tirou o maço de tabaco e o isqueiro do bolso da camisa e acendeu um cigarro.
Até isso lhe custava.
O fumo do cigarro misturado com aquele calor que pairava no ar deixavam-no tonto.
Nem por isso o apagou.
Passou levemente o copo de whisky com gelo na testa. As gotas de suor escorriam-lhe pela cara. 
Era o inferno.
Pensou em como teria ali chegado. Naquele quarto escuro e despojado de qualquer sinal de vida.

De onde estava sentado e no seio da penumbra que o envolvia, conseguia apenas distinguir os contornos foscos da cama de ferro, encostada à parede à sua esquerda, no canto mais afastado do vestíbulo; a mesa arredondada da cozinha à sua direita, que espreitava pela porta entreaberta e um retângulo escuro, pendurado na parede, mesmo à sua frente. Deveria ser um quadro, pensou ele. Sim, certamente que era um quadro (que mais poderia ser?). Tentou, em vão, lembrar-se do que lá estava representado. Inútil. Nem se lembrava se alguém lho tinha oferecido, ou se já estava naquela parede, quando se mudou para aquele apartamento (se é que se pode chamar apartamento àquele cubículo escuro e sujo).

Concentrou a sua atenção na organização dos pensamentos. Era uma tarefa mais árdua do que parecia; eles andavam dispersos, como o fumo que se desprendia do cigarro.

Por mais que se esforçasse, a sua mente só se dirigia para um pensamento:
Onde foram parar todos aqueles anos?

Qual foi o momento exato em que perdeu a sua juventude?

Quando foi que lhe tiraram o tapete debaixo dos pés?

Não se lembrava.

Como se costuma dizer, estava na 'flor da vida', nos 'anos dourados', em que tudo pode acontecer e onde todas as portas têm o sinal luminoso de 'saída'. Mas, se assim é, como é possível que se sinta tão velho, tão roto, tão absurdamente desgraçado?

Não consegue compreender.

A ironia onde se encontrava preso deixou de fazer sentido no momento em que desvendou totalmente o seu significado. Só não se lembrava de onde estava ele quando isso aconteceu.

Recordou vagamente do tédio que sentira naqueles dias passados sentado na beira do muro. Como queria lá voltar neste momento. O tédio de ontem tornou-se o desejo de hoje.

Lembrou-se Dela.

A imagem do seu rosto veio-lhe à memória, tão nitidamente, como se a estivesse a ver mesmo à sua frente. Mas, não queria pensar nela. Não sabia explicar, mas sempre que se encontrava num estado mais meditativo, ela aparecia-lhe, como uma miragem, para o distrair daquilo que realmente importava. Quando se apercebia disso ficava estranhamente irritado.

Mas hoje não.

Hoje sentia-se demasiado dormente para se irritar. Sem contar com o calor inebriante que se fazia sentir.

Esforçou-se por fazer desaparecer da sua mente aquele rosto, que, por mais que tentasse, teimava em ficar eternamente emoldurado na parede da sua memória.

Sorri.
Não é um sorriso forçado, mas sente vergonha dele. Não sabe bem porque sorri, foi um espasmo súbito que o arrancou do êxtase em que se encontrava por pensar nela.
Ele passa a mão pela cara, como se a lavasse. Se fosse assim tão simples.
Ele sabe que há algo de errado nele. Algo nos genes. É mais do que uma intuição, é uma certeza. A forma como vê o mundo à sua volta não é igual ao de todas as outras pessoas, tudo o que vê apresenta sinais de decadência e putrefação, o céu que nasce para ele nunca apresenta tons de azul, mas sim de um laranja gasto, um sol vermelho vivo paira no céu, com um tom recriminatório. Aos seus olhos, o verde não existe. As árvores, arbustos, arvoredos, todas as plantas são de um castanho assustador.
 

Pensa no passado.
O que quer que faça remete-lhe sempre para o passado.
Já analisou vezes sem conta as ações que tomou. O que fez para chegar a este ponto. Sabe que tomou todas as decisões de forma errada e acabou ali. No sufoco daquele quarto. Sozinho com o seu cansaço.
E este calor. Tinham anunciado que era a noite mais quente alguma vez registada.
Bebeu o whisky que restava no copo e tornou a enchê-lo. Já não tinha gelo, mas ele sentia-se pesado demais para se levantar.
Sentia todo o seu corpo entorpecido. Sabia que não era só por causa do calor.
Era aquele cansaço que não o deixava.
Pensou em todos aqueles anos desperdiçados. Na altura pareceram-lhe certos e promissores. Pensou na eventual possibilidade de voltar atrás e apercebeu-se que, muito provavelmente, faria tudo igual.
Nunca fez planos nem pensou no futuro. Para ele, tinha sido sempre tudo sobre o presente. E o passado. O passado que lhe volta sempre.
A janela estava aberta e sentiu ao de leve a brisa da noite tocar-lhe na pele. Como sabia bem o ar fresco no meio daquele inferno.
Levantou-se e foi até à janela.
Viu a rua cheia de gente aos encontrões uns nos outros.
A pressa.
Tornou a pensar em como teria ali chegado.
As pessoas nas ruas nem se apercebiam da decadência que as rodeava. Sentiu uma ponta de inveja.
Tornou a sorrir.
Questionou-se se os asilos estariam cheios, caso os outros vissem o mundo como ele vê. Se estivessem na sua pele.
Viu o céu iluminar-se ao longe.
Amanhecia.
Teria ficado acordado a noite toda?
Não importava. Já nada importava mais.
Sentiu o chão tremer debaixo dos seus pés, os prédios a desmoronarem à sua frente.
Acendeu outro cigarro e ficou a ver a cidade arder.

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